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Erro de Pensamento

11
Jan18

Relato de uma viagem de comboio

Com tanta polémica que tem havido neste inicio de ano acho importante escrever aqui sobre um desses flagelos. Diria que é talvez um dos temas que tem passado despercebido, mas é de tão ou mais importância que os outros. Esse flagelo é: sempre que ando de comboio fico com idosos ao lado.

 

Quero fazer já o disclaimer que não tenho nada contra idosos, mas quando olho à minha volta nos comboios vejo que há estrangeiros em conversas interessantes, jovens que poderiam muito bem ser modelos da Victoria's Secret (tudo bem, talvez esteja a exagerar, mas é gente com menos de 30 anos) e a mim calha-me sempre ficar na ala gereátrica . Se em 100 pessoas numa carruagem houver um membro da terceira idade eu já sei que vai ter lugar ao meu lado. Faço viagens de intercidades Alentejo-Lisboa há tanto tempo e com tanta frequência que poderia abrir um negócio. Uma empresa de blind dates, em que as pessoas falam com quem lhes calha ao lado, e estava tudo safo, porque eu ia a um canto da carruagem e fazia de íman de velhos, portanto iriam sempre calhar com alguém atraente e jovem. 

 

Devido a estas viagens sinto que sei melhor o historial médico de muitos desconhecidos que o meu. Começa sempre com alguém que, não bastando ter o toque de telemóvel no máximo, durante os primeiros minutos que o telemóvel toca resolve ignorar ou achar que é de outra pessoa. Quando atendem, lá está, fala-se da visita ao médico, o nome dos setecentos medicamentos que tomam e de que resolveram ignorar uma ordem do médico porque não o acharam simpático. Não que esteja ali a tentar ouvir, mas qual tortura de estado fascista, não há como fugir aquelas vozes aos gritos. Já cheguei até a ouvir alguém a fazer chamadas para a Madeira,  porque claramente um comboio cheio de gente, em que metade da viagem não há rede telefónica é a melhor oportunidade para tal. Até eu gosto de meter conversa em dia com família afastada quando não consigo ouvir o que me dizem do lado de lá.

 

Isto tudo para contar a minha mais recente viagem, em que após umas quantas paragens sozinho uma senhora idosa se senta ao meu lado. Uma senhora bastante simpática, obviamente a única pessoa que entrou naquela paragem que tinha mais de 60 anos teria de se sentar ao meu lado. A meio da viagem vejo que ela tira um smartphone e começa a jogar  Bubble Shooter, fico até feliz de viajar com um idoso que não acha que “Isto dos smartphones é que está a arruinar o mundo”. Passado um bocado reparo que ela está estática, ainda com o dedo colado ainda no ecrã, cabeça ligeiramente caída. Inerte e sem sinais de vida. 

 

Quando vejo alguém assim e com uma idade avançada sinto que estou a olhar para, aquilo a que chamo, um “Idoso de Schrödinger, até lhe tocarmos está a dormir e morto simultaneamente, para mim um conceito muito superior até ao conhecido agora pelos físicos teóricos. É bastante desagradável incomodar alguém no seu sono, tendo de acordar a pessoa para poder sair do lugar. É ainda mais desagradável tentar acordar alguém e a pessoa cair para o lado inerte. Ainda mais porque já estávamos perto da minha estação e não querendo abandonar friamente um cadáver também seria chato perder a paragem.

 

Ganhei coragem, dei um ligeiro toque no ombro da senhora, mais que isso e levo ainda levo #metoo na tromba. Acordou, fiquei a sentir-me mal de acordar a senhora e possivelmente a ter feito perder o jogo no smartphone.

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